História (será da inveja?)
Ele passeava lentamente por aquela calçada irregular. As costas direitas e o queixo levantado diziam-me que estava bem. Mas o olhar desfocado fazia-me perceber que estava bem longe.
Eu falava baixo para não o incomodar. Falava apenas para não me sentir abandonada. Sabia que tudo o que estava a dizer ele não se iria lembrar e queria acordá-lo. Estaria a ser demasiado egocêntrica?
Calei-me. Ele parou à porta de um café e varreu com o olhar todos os que lá se encontravam.
"Vem."
Sentei-me na mesa à sua frente.
Ele fixou o olhar no meu mas percebi que continuava a sonhar.
"O que vão desejar?"
Fiquei atrapalhada e pedi dois cafés. Ele não gostava de café. Eu não me tinha esquecido.
Os cafés vieram e eu bebi o meu com prazer. Deixei uma moeda em cima da mesa e levantei-me.
"Adeus." Não passou de um sussurro mas ele virou a cabeça.
Fez uma careta para o café e a sua expressão fez-me rir.
"Senta-te."
Não estava acostumada a receber ordens. Sentei-me. Ele continuou de olhos fixos nos meus mas já não sonhava.
Não falou e eu mantive-me calada e imóvel à espera. Tal como tinha feito por anos.
Não valeu a pena. Os olhos desfocaram-se novamente. Desta vez nem me despedi.
Olhei para trás e vi-o sentado, perna cruzada e revista equilibrada nas pernas. Toda a sua postura mostrava que estava concentrado na revista. Menos os olhos. Os seus olhos dourados estavam fixos em mim. E ele sorria.
Quando tornei a sair à rua, dias mais tarde, soube que ele tinha ido e que não ia voltar. Sorri, levantei o queixo e continuei a andar calmamente pela rua.
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