Pele
Existem poucas sensações no mundo comparáveis à de ter uma folha branca, lisa, nova, à minha frente, à espera de ser marcada. Aquele instante antes de romper o vazio e a possibilidade infinita. Uma folha, uma tela ou mesmo um carderno, todos à espera que os marque, todos por definir. O respeito que inspira uma folha assim, a expectativa sobre o resultado, a excitação do poder de decisão, de controlar...
Existe, no entanto, uma folha em branco que eu não trato dessa forma. Posso dizer que talvez seja a folha mais preciosa da minha vida. Uma folha nascida lisa e perfeita, uma folha nascida para ser marcada, para contar uma história, e para ser cuidada e acarinhada: a minha própria pele.
Desejo fervorosamente voltar atrás e ter a folha lisa e branca, cheia de potencial, sentir novamente o poder, o controlo sobre ela. Desejo poder apagar todos os erros e palavras riscadas, todas as linhas tortas e inseguras, os rasgões, manchas e ...
Sabem aquele projecto, aquele desenho que não gostaram? Que olharam para ele e perceberam que não tinham feito um trabalho bom o suficiente, que não estavam satisfeitos? Existem sempre mais uma folha para tentarem novamente, e quando sabem que não existe, dão sempre o vosso melhor para sair o melhor possível à primeira tentativa.
A minha pele é a minha folha em branco sem segunda hipótese, é aquele desenho que teria de sair bem à primeira. Posso estar esperançosa por ser um projecto que durará a vida inteira, e por isso com bastante tempo para desenhar e tentar corrigir. Mas não posso deixar de me entristecer com os erros que já cometi, com as marcas que fiz e não queria, com o desvio do projecto e das expectativas que tinha. Não posso deixar de me entristecer e desesperar porque a minha pele já não é uma folha em branco, já não é uma folha por marcar ou possuir. É possuída a cada dia mas não da melhor maneira, é marcada por cada momento, e não necessariamente os mais felizes, conta as histórias mais das dores e lutas de cada dia, do que do amor por mim mesma e pela vida. É riscada e desenhada sem cuidado, sem o respeito que daria a qualquer outra folha.
A minha pele já não é uma folha em branco. Foi desenhada, dobrada, riscada, rasgada. Foi descuidada e desadorada. Foi desprezada durante muitos anos, e ainda o é. A minha pele é a folha que eu risco sem cuidado, sem pensar nas consequências ou no produto final, e só depois é que olho e me apercebo do que fiz. E não posso voltar atrás.
A minha pergunta é se posso começar a conhecer cada ponto, traço e desanho. Se os posso traçar com as pontas do dedos e não com as unhas, se o posso adorar e não desprezar. A minha pergunta é se consigo encontrar beleza nas imperfeições, nas marcas que deixei em mim mesma. Se conseguirei algum dia olhar para a minha própria pele e lê-la, sem o desejo de a rasgar, despedaçar, a esquecer. A minha pergunta é se conseguirei deixar de olhar para a minha pele como um erro, ou como erro atrás de erro, e se conseguirei algum dia torná-la minha, torná-la eu.
Existe, no entanto, uma folha em branco que eu não trato dessa forma. Posso dizer que talvez seja a folha mais preciosa da minha vida. Uma folha nascida lisa e perfeita, uma folha nascida para ser marcada, para contar uma história, e para ser cuidada e acarinhada: a minha própria pele.
Desejo fervorosamente voltar atrás e ter a folha lisa e branca, cheia de potencial, sentir novamente o poder, o controlo sobre ela. Desejo poder apagar todos os erros e palavras riscadas, todas as linhas tortas e inseguras, os rasgões, manchas e ...
Sabem aquele projecto, aquele desenho que não gostaram? Que olharam para ele e perceberam que não tinham feito um trabalho bom o suficiente, que não estavam satisfeitos? Existem sempre mais uma folha para tentarem novamente, e quando sabem que não existe, dão sempre o vosso melhor para sair o melhor possível à primeira tentativa.
A minha pele é a minha folha em branco sem segunda hipótese, é aquele desenho que teria de sair bem à primeira. Posso estar esperançosa por ser um projecto que durará a vida inteira, e por isso com bastante tempo para desenhar e tentar corrigir. Mas não posso deixar de me entristecer com os erros que já cometi, com as marcas que fiz e não queria, com o desvio do projecto e das expectativas que tinha. Não posso deixar de me entristecer e desesperar porque a minha pele já não é uma folha em branco, já não é uma folha por marcar ou possuir. É possuída a cada dia mas não da melhor maneira, é marcada por cada momento, e não necessariamente os mais felizes, conta as histórias mais das dores e lutas de cada dia, do que do amor por mim mesma e pela vida. É riscada e desenhada sem cuidado, sem o respeito que daria a qualquer outra folha.
A minha pele já não é uma folha em branco. Foi desenhada, dobrada, riscada, rasgada. Foi descuidada e desadorada. Foi desprezada durante muitos anos, e ainda o é. A minha pele é a folha que eu risco sem cuidado, sem pensar nas consequências ou no produto final, e só depois é que olho e me apercebo do que fiz. E não posso voltar atrás.
A minha pergunta é se posso começar a conhecer cada ponto, traço e desanho. Se os posso traçar com as pontas do dedos e não com as unhas, se o posso adorar e não desprezar. A minha pergunta é se consigo encontrar beleza nas imperfeições, nas marcas que deixei em mim mesma. Se conseguirei algum dia olhar para a minha própria pele e lê-la, sem o desejo de a rasgar, despedaçar, a esquecer. A minha pergunta é se conseguirei deixar de olhar para a minha pele como um erro, ou como erro atrás de erro, e se conseguirei algum dia torná-la minha, torná-la eu.
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