História - Parte2
Olhei à volta esperando encontrar a minha companhia. Seria apenas uma tarde agradável a conversar sobre... bem sobre tudo e nada, ao mesmo tempo.
Parei ao vê-lo. Senti que os meus músculos se tornavam rijos e a minha respiração saiu pesada. Senti a adrenalina no sangue como se fosse correr e as minhas mãos tremeram.
Olhei para o chão concentrando-me.
Ele voltara. ELE voltara!
"Olá."
Ergui a cabeça sem me atrever a respirar. Lá estavam aqueles olhos dourados, o queixo levantado, as costas direitas e a postura perfeitamente equilibrada.
"Olá."
Sentia-me como uma rapariga do secundário. Que merda era aquela?
"Vem."
Porque raio é que obedecia sempre às suas ordens? Tinham passados anos. Anos que eu aproveitara como uma bênção para o esquecer. E agora...
"Senta-te."
Sentei-me ao seu lado no muro do jardim.
Ele continuava a observar-me com o olhar penetrante que eu tanto admirava. Não falámos. Ele estava ligeiramente inclinado na minha direcção e o seu bafo acariciou-me a face.
Fiquei à espera que o olhar sonhador voltasse. E não sabia o que fazer quando isso acontecesse.
Ele sorriu ironicamente.
"Não vai acontecer. Eu estou aqui."
Parei de respirar. Quantas vezes eu desejara que ele dissesse aquilo durante muitos anos! Mas agora...
"Eu não estou."
Ele afastou-se. Os olhos revestiram-se de mágoa.
"Eu estou aqui. Não vou partir."
A sua voz mostrava-se convicta e o queixo estava cerrado.
"Eu sei. Mas eu já parti." Arrepiei-me com o olhar de dor com que ele me presenteava. "Já passou muito tempo."
Ele levantou-se e estendeu a mão. As suas costas já não estavam direitas. O seu queixo estava baixado.
"Vem."
Eu obedeci. Como sempre.
Ele guiou-me pelas ruas sem nunca largar a minha mão. E falou comigo. - Ele falou comigo! - Contou-me o que tinha feito durante todos aqueles anos que estivera fora. A sua voz grave enfeitiçou-me. A sua mão grande movia-se ilustrando o que contava e eu não conseguia deixar de fixar a sua cara.
Ele guiou-me até um jardim e levou-me para a fonte. Não estava muito calor mas senti-me muito quente quando ele me puxou para o seu lado e me passou o braço pela cintura.
"Tu não partiste." Ele sussurrava apenas e eu senti que corria uma lágrima pela sua cara.
Afastei-me o suficiente para lha limpar.
"Sim, parti. E ainda não estou pronta para voltar."
"Quando estarás?"
Só sorri e sentei-me ao seu lado sem lhe tocar. Ele tornou a inclinar-se sobre mim e os seus lábios entreabriram-se num convite.
"Eu não estou..."
Os seus lábios cobriram os meus impedindo-me de continuar. Foi apenas um toque suave e breve mas eu desejara aquele gesto toda a minha vida.
"Vem."
Era um sussurro e uma súplica. E eu obedeci. Como sempre.
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