Uma história de barcos
Era de dia e eu remava, e remava, e remava, e remava. Não tinha exatamente mais nada para fazer. Estava no meio do nada, com o meu pequeno barco de madeira frágil. Então remava e remava, e remava. Sempre para a frente, mesmo quando virara. Sempre para a frente mesmo quando era noite e eu não via nada. Sempre para a frente mesmo quando as ondas eram cinzentas e se tornavam mais altas que eu alguma vez seria.
Estava sozinho no meio do nada, então remava, e remava, e remava, e remava. O que me rodeava era azul. Do céu e do mar. Ou então cinzento, do céu e do mar. Não havia qualquer outra cor para além do azul. E o infinito estendia-se à minha frente, entendia-se para trás de mim. Entendia-se para todos os lados. E então eu remava, e remava, e remava. Porque não havia mais nada que eu pudesse fazer.
Continuava todos os dias. Sob o sol escaldante ou sob a chuva dura e pesada. E eu remava pois não havia mais nada que eu pudesse fazer.
No início lutei e tentei voltar ao que era antes. Tentei ficar de pé sobre o pequeno barco vacilante e ver onde era terra. No início deixava-me estar à deriva, e esperava, e esperava, e esperava, e esperava. Esperava que as coisas não fossem assim tão diferentes de como eram antes. Ou esperava que me viessem resgatar.
Mas depois passou o tempo e eu cansei-me de esperar e passei a remar. E remava, e remava, e remava. Sentia prazer pelo propósito. Sentia prazer pela dor nos braços e nos ombros. Sentia prazer de cada vez que rodava o pescoço e ele estalava. E ele ainda estala, todos os dias. Sentia felicidade por avançar, por desvendar este mar bravio que era só meu. E remava por ele, afastando todos os monstros. E remava por ele, saindo de todas as tempestades. E remava por ele, cortando as ondas com os meus remos. E remava, e remava, e remava.
E depois não sei como será. Talvez continue a remar. Talvez reme até morrer. Talvez finalmente encontre uma terra para viver. O futuro será sempre um talvez, mas eu sei que agora remo, e remo, e remo, e remo, e remo. Todos os dias eu remo. E remarei todos os dias, até ao fim.
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