História 2 - Parte 2

Eu sabia que era um sonho. Já tinham passados anos e eu continuava a ter os mesmos sonhos.
Lá estava ela. Corria ao lado dele com os cachos dourados a balançarem. Com os olhos azuis sempre muitos abertos e curiosos. Com os dentes pequeninos e brancos à mostra como prova de felicidade.
Ouvi a sua gargalhada juntar-se à gargalhada dele e senti a felicidade a percorrer-me. Era abençoada por ter tido este tesouro.
"Mamã mamã! Olha tão bonito!"
Voltei-me para a ver apreciar as flores que estavam no jardim.
Peguei-a ao colo sentindo a sua barriguinha de criança contra o meu peito.
"Pois é, minha querida. São lindas!"
Ouvi o riso dele e fiz um esforço para não me rir. Se ela gostara das flores iria adorar o fato de banho que tínhamos comprado para ela!
Continuámos a andar de volta para casa depois de um dia de muitas brincadeiras no rio. Ela contava-me que tinha visto muitos peixes no rio e descrevia-mos todos, encantada com o que tinha aprendido.
Senti um prazer enorme ao vê-la pegar no fato de banho e gritar feliz. Era lindo. Cheio de flores tal como ela gostava.
Nessa tarde dormiu a sesta com o fato de banho e não quis tirá-lo por nada. Mesmo depois do banho quis vesti-lo mesmo que lhe vestisse um vestido por cima.
Sentia que a minha vida era perfeita e não haveria nada que a pudesse mudar!
Nessa noite a pequena juntou-se a nós na cama e não haveria forma alguma de a tirar de lá, mas naquela noite nem eu queria estar de outra forma. A minha vida era perfeita!
Senti que alguém me agitava o braço. A pequena estava a acordar? Parecia tão cedo!
"Acorda."
As lembranças desceram sobre mim como uma mortalha e a dor ameaçou rasgar-me ao meio. Mesmo após tantos anos continuava a sentir uma dor tão forte como se tivesse sido ontem.
"Desculpa-me."
Levantei-me. Eles estava lindo, como sempre. Mas notei que a dor também o mudara todos estes anos. Estava mais magro, com rugas de dor a marcarem a sua cara nos lábios, nos olhos e na testa.
Ainda não tinha amanhecido. Vi uma criança na porta do quarto. Uma menina de cachos de  ouro. Era ela! Mas os olhos eram escuros. Não era ela!
"Desculpa-me." Os olhos dele estavam cheios de lágrimas.
Levantei-me e peguei na minha menina preciosa ao colo.
"O que foi minha querida?"
"Posso dormir com vocês?"
Olhei para o meu marido. Ele sofria mais que eu. Ele culpava-se por aquilo que tinha acontecido e sabia que eu não o tinha perdoado completamente.
"Claro. Vem  para aqui." Deitei-a no meio de nós e formámos uma rede de segurança à volta dela.
Os detalhes daquela tarde ainda não tinham uma completa explicação. Mas eu um dia saberia. Um dia ele falaria comigo e confiar-me-ia o que tinha acontecido. Como tinha permitido que aquilo acontecesse.
"Dorme bem, minha pequena."
Ela fechou os olhos e eu esperei que adormecesse até pensar em fechar os olhos.
Como todas as noites a lembrança daquele dia fez as lágrimas correrem.
"Ela está viva." Ele sussurrou.
"Sim. Ela está viva."
Não precisávamos de falar. Ele sabia, tal como eu, que, mesmo morta, a nossa princesa continuava viva.

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