"Everything has changed"
Estava apenas eu ali. Era uma sala enorme, rica, grandiosa, a mais grandiosa que eu alguma vez entrara.
Entrei, com o coração aos saltos. Não sabia onde estava nem o que fazia ali, mas sentia-me bem, feliz, alegre. Era aquele o meu lugar? Mas porquê?
As saias atrasavam-me o passo e eu desejei ter as minhas calças de ganga vestidas e umas sapatilhas. Comecei a andar mais depressa e arfei com surpresa: o vestido dera lugar a uma simples blusa, umas calças de ganga e as sapatilhas... Onde é que eu estava?
A sala tinha velas espalhadas pelas paredes e móveis criando um ambiente abafado e quente. O centro estava vazio, mas nas paredes os retratos eram intercalados por janelas enormes de vidro que guiavam para uma varanda.
De súbito uma música começou. Suave, calma. Uma valsa, reconheci.
Não evitei uma gargalhada: não tinha exactamente um par para dançar valsa. Então a música mudou e soou uma que eu dançara tantas vezes sozinha, ou ouvira nas minhas caminhadas. E eu dancei pela sala, rodando, deslizando. As sapatinhas desapareceram e eu comecei a girar e a saltar até ficar sem fôlego.
Uma voz juntou-se à melodia e eu juntei a minha, cantando com toda a voz que tinha e de olhos fechados, sentido toda a minha vida encaixar-se, naquele lugar.
Uns braços pegaram em mim e guiaram-me em voltas pela sala. Eu estava a dançar de olhos fechados e deixei-me levar. De súbito parámos e eu atrevi-me a abrir os olhos para ver quem me abraçara.
Era ele. Aquele que habitara nos meus sonhos. Aquele que eu pensara tratar-se não mais que um sonho, uma fantasia, uma recordação inventada. Mas ele estava ali com o sorriso dele, que eu tão estranhamente conhecia, com as sobrancelhas arqueadas e um olhar brilhante irónico.
Era ele. Não sabia o seu nome mas só me queria agarrar e abraçá-lo, beijá-lo, segurar o seu rosto nas minhas mãos e analisar todos os seus traços que me eram desconhecidos e familiares ao mesmo tempo, passar as mãos e segurar o seu cabelo negro de seda, brincar com o seu brinco de diamante, agarrar-lhe as mãos e verificar que ele era meu, como eu o sentia.
Ele piscou-me um olho e eu perdi-me no seu olhar, no seu cheiro, no seu sorriso. Ele abraçou-me e eu perdi-me nele, e eu estava em casa.
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