Tristeza
Havia tanta tensão. Tanto stress. As pessoas estavam vestidas de escuro, de cara fechada, de desconfiança. Ninguém falava. Ninguém sorria. Ninguém apresentava um olhar amigável. Ninguém queria. A situação era completamente surreal. Não acreditava que estava mesmo ali, no meio de todas aquelas pessoas que não conhecia e despedir-me de uma pessoa que fora importante mas que nunca vira pessoalmente.
O tempo estava lindo, perfeito, maravilhoso: um dia de verão magnífico. E no meio de todo aquele peso tudo o que eu pensava era que não queria aproximar muito de flores pois deviam estar cheias de abelhas.
Nós saímos em pequenos grupos ou, no meu caso, sozinha. As pessoas que passavam por mim não me falavam mas perguntavam-se quem eu era e o que fazia ali. Não perceberam que fora eu que estivera ali para ele nos últimos meses da sua vida, que o ouvira, que lhe fizera companhia e até sorrir. Nunca o vira antes e o seu rosto era surpreendente!
E afinal ele tinha família e "amigos" que choravam amargurados a sua perda. Mas nos últimos meses, quando ele não se mexera, quando ele não dormia, quando queria desistir da vida e quando chegava a desistir, não tinham sido eles a insistir, não tinham sido eles a acordarem a meio da noite só para o ajudarem a passar por mais uma noite.
Ele nunca me conhecera, ele nunca vira o meu rosto. Mas ele confiava em mim mais do que em qualquer outra pessoa no mundo dos vivos.
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O quarto estava quente, abafado. Não conseguia dormir mas não tinha ninguém a quem ligar para me ajudar a ultrapassar esta noite. Não era só eu que o ajudava nas noites difíceis. Ele tinha um dedo que adivinhava a ligava-me sempre nas noites mais difíceis e assim estávamos juntos, e riamos juntos e consolávamos as nossas mágoas juntos.
Mas ele tinha partido. Estava junto da sua Gelinha, como ele lhe chamava, e a minha vez iria demorar a chegar - ele também sabia isso. E eu estava sentada num quarto de hotel abafado, no escuro, com os meus próprios braços como meu único consolo e as lágrimas não escorriam. Então fiquei assim até amanhecer com os braços doridos de tanto me apertar e os olhos secos de tanto os esforçar para permanecerem abertos.
Quando o sol bateu nos meus olhos percebi que tinha conseguido passar a esta noite. Sem ajuda. Sem ninguém. Exactamente como passaria, muito provavelmente, o resto da minha vida.
Não me lembro de ouvir as batidas apressadas nem a porta a abrir e a bater. Só me lembro dos olhos azuis, brilhantes. Os primeiros olhos calorosos que vi desde que aqui cheguei e, sem saber bem como, ou como não me controlei, comecei a chorar descontroladamente. Deixei as lágrimas saírem, a dor do meu peito sob a forma de soluços que ficaram estúpidos porque os tentei impedir, o desespero que sentia quando ao futuro na súplica dos meus olhos e a dor de todas as minhas perdas pelos meus gritos. E aqueles olhos azuis ouviram-me, leram-me, abraçaram-me, deixaram os meus soluços sair e deixaram-me fazer dos seus braços o meu ninho de repouso.
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