O Início
Era uma vez um sol. Estava brilhante e cheio de cor. Não conseguia simplesmente olhar. Um sol cheio de calor e de raios de abraçar.
O mar salgado refrescava o meu rosto e ar puro cheio de maresia fez-me esquecer tudo quanto me tinham feito, todas as minhas lembranças e motivos. Queria ficar assim para sempre. De pé naquele imponente navio que rasgava as ondas e cujo o destino era apenas mais mar. Queria poder saber que nunca mais teria de por os pés em terra, que não me teria de preocupar com algo mais que dormir abrigada, apreciar a paz e manter-me fora do caminho dos marinheiros que se divertiam a dar lições aos desajeitados e a amaldiçoar as mulheres pela má-sorte que traziam.
Apertei o cordão dourado ao de leve e senti o peso reconfortante da minha herança. Mas esse peso arrastou-me para a realidade e todas aquelas recordações dolorosas arrasaram-me. Vi-me num salão decorado de forma cuidada. Vi-me debaixo de uma mesa. E vi-os deitados no chão, afogados no seu próprio sangue, sem vida, sem cor, sem calor. Abracei-me. O sol tinha deixado de ter o seu efeito reconfortante. Também ele tinha esmorecido.
Tornei a apertar o fio. Talvez quisesse que ele me transmitisse uma coragem que eu não tinha. Mas não fez qualquer efeito. A minha herança. A minha única herança, juntamente com as memórias que me perseguiam em sonhos e com o destino traçado pelo meu avô.
Um dor forte fez-me dobrar e agarrei o meu peito. Se isso ao menos o impedisse de se partir em pedaços...
Inspirei fundo e limpei a garganta. Só me podia dar ao luxo de chorar durante a noite onde ninguém iria testemunhar as minhas lágrimas. O capitão não era um homem tolerante. O capitão era aquele tipo de homem que integrava toda a espécie de piores características alguma vez presentes em qualquer homem. A única coisa que me fizera por os pés naquele barco era saber da sua "lealdade" à minha avó. E ela garantira-me que ele seria leal a cada promessa que fizesse, até à sua morte. Então eu arrancara-lhe, com esforço, a promessa de me proteger até chegar ao meu destino! Tinha ficado iludida ao pensar que ele me trataria com o respeito que dava à minha avó, a "rainha" do gelo, mas ele tratara-me pior que a uma ratazana, e eu já não lhe dirigia a palavra.
O sol chegou novamente e com ele as lembranças evaporaram-me.
"Chegará a seu destino amanhã."
Virei-me incomodada pela proximidade que eu não tinha percebido.
"Onde é?"
O capitão apontou para leste e eu vi que nos aproximava-nos rapidamente de umas ilhas. Não conseguia distinguir nada mais que o contorno.
"Como são?" Perguntei cedendo à minha curiosidade.
Ele sorriu. Não era um sorriso simpático. Eu esperei que ele me respondesse mas ele voltou-me costas e voltou para o leme.
Comentários
Enviar um comentário