História 3 - Parte 1

Um dia sentei-me à sombra de uma árvore. Estava um dia quente, cheio de sol e com a aragem perfeita. Encostei-me ao tronco rugoso e deixei que o som das folhas a a dançarem me embalasse.
Não sei quando adormeci mas percebi, assim que acordei, que não tinha estado inconsciente durante muito tempo. afinal, ainda estava o sol radioso e quente que se sente a meio do dia e o vento ainda batia suavemente contra a minha cara.
Ouvi um zumbido e levantei-me irritada. comecei a olhar à volta e a sacudir-me. Odiava abelhas e vespas e tudo o que fosse da família e que voasse perto da minha cara! Era uma pena que fosse tão difícil escapar-lhes.
Corri para casa. Não podia dar-me ao luxo de continuar a dormir. Tinha trabalho para fazer e o meu patrão era um homem exigente.
Fui parada à entrada pela governanta. Tal como o patrão, ela também não suportava ineficácia.
- Onde estiveste?
Já me habituara ao tom brusco que usava sempre que me falava. Mas ainda me lembro de tremer nos primeiros dias.
- Pareceu-me ver alguém a rondar os terrenos.
Ela arqueou a sobrancelha e levou as mãos à cintura grossa.
- E quem era?
- Tinha a pele tão enrugada que parecia a casca de uma árvore. - Reprimi o riso. - E tão largo como o tronco.
- E o que queria?
- Nada. Afinal era só uma árvore.
Escapei-me a ela quando vi na sua cara a concentração para decidir se estava a falar a sério ou a... contar uma história.
Outras raparigas trabalhavam lá em casa, mas apenas a cozinheira estava àquela hora na cozinha. Era magra como o ramo mais fino da árvore mais fina e a sua pele velha, cheia de rugas e manchas era mais escura que uma noite de inverno. Só o cabelo mostrava que era como qualquer pessoa: cinzento com fios brancos, muito puxado para fazer um carrapicho, obrigando a nossa atenção a focar-se nos olhos negros, brilhantes e irrequietos. Muitas raparigas achavam-na assustadora. Eu via-a como uma mãe.
- Onde está toda a gente?
Ela não levantou o olhar do que estava a fazer.
- É hora de fazer o almoço. Elas só estarão aqui quando for hora de o servir.
Fiquei sentada. Isso significava que eu não dormira mais que uns minutos. Fiquei aliviada. A governanta gostava de punir cada deslize meu.
- E onde é que estiveste?
- Pensei que tinha visto alguém a rondar os terrenos e...
- Conta-me outra história, Carolette. Essa já é velha.
Eu fiquei calada com a reprimenda.
- Então? Ficaste sem ideias? Não posso acreditar.
Ela não gostava que eu inventasse histórias.
- Está um dia maravilho, Cé. Eu fui lá fora encostar-me a uma árvore. Foram apenas uns minutos.
Ela grunhiu qualquer coisa e eu não percebi.
- Para próxima esperas pelo teu dia livre.
- Mas eu já tenho dezasseis anos. Já não tenho dia livre.
- Eu falei com a governanta. Devido à tua forma de ser, este ano continuas a ter dia livre.
Não sabia se haveria de me sentir feliz ou com raiva. Já não era uma criança!
- Quando é o meu dia livre?
- Amanhã.
Eu rejubilei! Amanhã estaria um dia tão perfeito como hoje.
- Mas promete-me uma coisa, Carolette. - Ela olhou-me com os seus olhos negros a brilharem de preocupação. - Não sairás dos terrenos amanhã.
- Mas eu queria ir à aldeia!
- Podes ir para a semana. - Disse bruscamente. - Amanhã não sais dos terrenos. Promete-me, Carolette! Promete-me!
Eu prometi chateada. Mas não discuti mais. Teria uma dia livre. Isso era o que importava.
Comportei-me de forma exemplar durante o resto do dia. No dia seguinte levantar-me-ia um pouquinho mais tarde e iria passear. Mas não sairia dos terrenos. Tinha prometido. 


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