História - Parte 4

Abri os olhos a custo e levantei-me com desagrado da cama quente e macia.
Lá fora a chuva caía como se quisesse dar um banho à cidade inteira.
Fiz a maior careta silenciosa que pude uma vez que não havia ninguém para a ver.
Um duche. Depois de um duche ficaria bem.
Sai à rua a correr sem conseguir deixar de praguejar contra as beiras. Depois de tantos dias de chuva seria de esperar que pelo menos houvesse um dia com sol.
Um chapéu de chuva foi posto miraculosamente sob a minha cabeça. Virei-me para agradecer mas a voz morreu na minha garganta e eu fiquei a olhar. Apenas a olhar, fixamente, sentindo as minhas mãos a tremerem e as lágrimas a fazerem os meus olhos arderem.
Voltei a cara.
"Obrigada."
A partir de uma altura percebi que era ele que me guiava. A sua mão agarrou o meu cotovelo e eu perdi-me nos meus pensamentos, nas minhas memórias. Aqueles dias que passáramos juntos. Aqueles dias em que o olhar dourado e penetrante era constante e não me enchia de medo. Medo de o perder. E nesses dias também nunca se afastava. Nunca, nunca, nunca, cumprindo a sua promessa.
Até a quebrar e partir numa qualquer manhã.
E eu voltara-lhe costas e esquecera-o durante muitos anos. Até hoje.
Mas estávamos agora mais velhos. E a vida já não era a aventura e já não tinha a esperança que teve.
Ele largou o meu braço e fechou o chapéu.
"Obrigada." A vida como eu a idealizara já não era apetecível o suficiente. Então afastei-me tornando a embrenhar-me na chuva esperando que ela pudesse disfarçar as minhas lágrimas.
"Espera! Eu estou aqui!"
Fechei as mãos em punhos e obriguei-me a continuar. Ouvi-o a correr atrás de mim a continuar a gritar e a chamar-me.
"Pára!"
Parei.
"Eu não vou tornar a partir."
A raiva tomou-me de assalto.
"É o que sempre dizes! Foi o que SEMPRE disseste! Foi o que NUNCA conseguiste fazer!"
"Por favor." Ele não gritava mas eu continuava magoada.
"Vai-te embora! Tu não pertences aqui. Vai-te embora e não voltes!"
"Por favor."
Ele alcançou-me e tomou as minhas mãos.
"Vai-te embora!" Enfrentei o seu olhar dourado. O olhar que eu amara toda a minha vida. O olhar que eu ainda amava. Ele estava tão triste.
As lágrimas caíram dos meus olhos. Sim, eu amava-o. Mas já não estava disposta a sofrer.
"Vai-te embora."
"Por favor." Eu só queria limpar as lágrimas do seu rosto. "Eu amo-te."
"Vai." Não tinha forças para mais nada a não ser sussurrar.
Ele repetiu-se.
Coloquei as minhas mãos nas suas e olhei-o nos olhos.
"Beija-me."
A esperança nasceu nos seus olhos e foi como se o sol despontasse. Ele inclinou-se mas hesitou.
"Beija-me."
Então ele tomou os meus lábios com a maior das delicadezas, a sua mão agarrou o meu cabelo e a outra voou para a minha cintura, mantendo-me presa junto a ele.
"Agora. Agora deixas-me ir."
Ele apertou-me mais e eu não falei, sentindo feliz e completa nos seus braços e a armazenar as recordações suficientes para o resto da minha vida.
Então, muito devagarinho, ele afastou-me para olhar nos meus olhos. Os seus dedos desenharam os traços do meu rosto e percebi que também ele armazenava recordações. Ele olhou-me uma última vez.
"Perdoa-me." Foi apenas um sussurro. Então ele deixou cair as suas mãos e elas ficaram a baloiçar, sem vida, ao lado do seu corpo.
Foi a coisa mais difícil que fiz no mundo. Os meus pés voltaram-se e começaram a andar. E eu não olhei para trás pois sabia que nunca conseguiria partir se o fizesse.
Então as lágrimas caíram e aí ficariam por muitos anos.
As suas memórias fizeram-me sorrir por alguns anos. Mas acabei por as enterrar pois magoavam-me ainda mais do que me faziam sorrir. No entanto, de cada vez que o adormecia, sonhava com ele. E cada vez que saia à rua procurava-o. Sabia que ele ia respeitar o meu pedido e lamentei isso para o resto da minha vida.

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