"Não sei por onde começar" - Uma viagem inesperada

        Quero traçar uma linha direita e definitiva. Existe um eu de há um ano atrás e existe um eu diferente agora, neste dia, neste momento. E existe um dia, uma tarde de sol, em que me sentei num banco de jardim, depois de um perfeito de praia, e senti que o mundo tinha parado de girar ou que tinha sido eu a começar a girar no sentido contrário ao do mundo. Uma linha, como um marcado, que sinaliza aquele dia, aquele momento como uma transição.
        Não gosto de ações, decisões ou palavras de outras pessoas me definam e, no entanto, nem sempre me posso afastar deste defeito do que é ser humano. E nesta tarde cai ao chão e permiti que decisões que outros tomaram me definissem mais fortemente que qualquer outra coisa. Durante muito tempo carreguei este dia como uma legenda de quem era, do que tinha realizado, e mesmo agora continua a ser a linha a partir da qual me defino, julgo e avalio. Daí a linha definitiva - não vale mais a pena fugir ou tentar fingir que não aconteceu, não vale mais a pena imaginar que já está tudo bem, resolvido ou esquecido. Não está. E não faz mal. O que faz mal é usar esta lembrança e estes sentimentos para me fazer cair, é usar este dia para não gostar do que vejo ao espelho, é usar esta decisão para me sentir insuficiente e incapaz, para me sentir falhada. O que faz mal é olhar para o que ficou antes da linha traçada e achar que as únicas coisas boas em mim ficaram por ali e não atravessaram o marcador com este novo eu.
        Durante muito tempo não me perdoei por ter uma linha escura, que desenhava nuvens nesse dia de sol, na minha vida. Durante todos estes meses não me perdoei por uma decisão que não tomei, nem me perdoei por ter virado a minha vida 180 graus, por não ter permanecido a mesma pessoa que era antes.
        Pois bem, chegou a hora de traçar esta linha e de perceber que a Margarida que se levantou daquele banco de jardim não foi a mesma que se sentou, que a Margarida que se levanta agora todos os dias não é igual à Margarida que ficou sete dias em silêncio. Sou a mesma pessoa mas não sou igual. E não faz mal. Chegou o momento de perceber com as linhas vêm as oportunidades, os diários por escrever, os jardins por descobrir e as páginas por ler. Com esta linha traçada chegou o momento de agradecer por aquilo que fui e senti e como vivi, e de dar o passo em frente e começar um novo caminho. Chegou o momento de assinar o contrato dos anões e sair de casa, partir para uma viagem inesperada, comigo mesma, de recomeço, de redescoberta.
        É o momento para dar uma oportunidade de escutar a voz que muitas vezes silenciei, para libertar as rédeas de tantas coisas que tenho medo de fazer, para descobrir novas facetas no meu reflexo. Para me redescobrir sem necessariamente me definir. Posso ser quem me apetecer ser, mais do que quem desejo ser.
        Não sei bem por onde começar, mas essa é a graça. Não há linha de chegada, não há caminho traçado, não há definições. Vou começar com um passo e depois logo se vê.

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